O drama da seca no maior reservatório do Brasil

Fonte: O Estado de São Paulo
11/09/2017

Serra da Mesa, em Goiás, está com 9% da sua capacidade total de armazenamento

Há uma mentira escrita sobre o portal de entrada do “Memorial Serra da Mesa”. Nas margens do que ainda resta do maior reservatório da América Latina, encravado no Estado de Goiás, o que se lê sobre o pórtico do museu é que “O rio que passa, fica”. O rio não ficou. O reservatório, tampouco. Passados quase 20 anos desde a sua inauguração, o principal lago do País em volume de água armazenada está sumindo a olho nu.

Serra da Mesa está com 9% de sua capacidade total de armazenamento, situação trágica que já supera a fase de maior agonia da represa, registrada em 2001. O nível atual da água está 35 metros abaixo da cota máxima que a represa comporta, uma altura equivalente à de um prédio de 14 andares. Se a situação de hoje for comparada com a cota média da represa nos seus 20 anos, são 26 metros abaixo do que se tinha regularmente. O nível da água cai entre quatro e cinco centímetros por dia.
Nas últimas semanas, a longa ponte de concreto que ligava os municípios de Uruaçu e Niquelândia e que ficou no fundo da represa após o fechamento da barragem voltou a ressurgir na paisagem. Pescadores locais, que anos atrás passavam com seus barcos metros acima da estrutura, agora cruzam a ponte caminhando, com as águas pelas canelas, levando as tralhas de pesca para tentar fisgar algum peixe que ainda não foi embora, por conta da redução do oxigênio na água e do aumento de sua temperatura. O turismo evaporou.
Em seus dias áureos, o lago de Serra da Mesa, que tem seu curso principal formado sobre o Rio Tocantins, chegou a guardar algo próximo de 54,4 bilhões de metros cúbicos de água, uma imensidão líquida que se espalha por 1.784 quilômetros quadrados, área maior que a cidade de São Paulo, com seus 1.521 km². Desde o fim de 2012, no entanto, a escassez das chuvas tem transformado esses números em história. O nível da água só caiu e, agora, atinge seu pior cenário desde a criação da barragem, no dia 12 de junho de 1998, exibindo as rugas de uma estiagem severa que castiga a região há cinco anos.
Salvador Ferreira de Almeida, o “Deuzin”, é um dos tantos pescadores que tiraram o sustento da família com o trabalho na pesca e no transporte de milhares de turistas que vinham atrás dos tucunarés nessa região da represa, no entorno de Uruaçu. Deuzin ainda veste a camisa verde com seu nome estampado, telefone e a frase “Alugam-se barcos”. Faz oito meses que Deuzin não transporta nem um pescador sequer.
Salvador Ferreira de Almeida, o Deuzin, está há 8 meses sem receber turistas para pescar no lago. Em épocas de cheia, era preciso fazer reserva antecipada. Foto: André Borges/Estadão
“Tem quatro anos que a coisa foi ficando feia, muito feia, e nunca mais voltou. É uma tristeza o que gente tem passado aqui”, lamenta Deuzin, um dos pescadores mais antigos da região. “Quando fizeram essa represa, disseram que ela ia ter uma cota mínima, que ia ser mantida. Hoje a gente não sabe mais que cota mínima é essa, porque a situação só piora.”
Como o peixe nativo rareou nos últimos anos, os pescadores passaram a criar tilápias em cativeiro, lançando tanques de aço com mantas de nylon na beira do lago. No ano passado, o negócio promissor converteu-se em drama financeiro e ambiental. Deuzin cuidava de cinco toneladas de peixe em seus viveiros. De um dia para o outro, os peixes deixaram de comer e, na manhã seguinte, amanheceram todos mortos. “Disseram que foi por falta de oxigênio. Depois falaram que podia ser o agrotóxico que veio de plantações da região. O que sei mesmo é que perdi R$ 22 mil.”
Ao todo, foram mais de 100 toneladas de peixes jogados no lixo, episódio que praticamente quebrou a Cooperativa dos Piscicultores do Lago Serra da Mesa (Cooperpesca), que reúne 33 pescadores. Em vez de peixes, o que criaram foi uma dívida de mais de R$ 300 mil.